segunda-feira, 11 de abril de 2011

SAUDADES


Antônio Carlos Affonso dos Santos,
o ACAS, é natural de Cravinhos-SP,
cidade próxima a Ribeirão Preto.
Nasceu na zona rural, numa fazenda
de café. Ali viveu até os treze anos
de idade, quando veio para São Paulo,
sozinho, para trabalhar em um
armazém em Osasco-Grande São Paulo.
Vive em Taboão da Serra, SP,
há 38 anos.
Por Antônio Carlos Affonso dos Santos – ACAS
Quando eu tinha meus treze anos de idade, ia todos os domingos, logo após o almoço, na casa de um amigo, só para ver o “Cirquinho do Arrelia” na televisão, pois naquele tempo não tínhamos TV em casa. Era maravilhoso ver o grande palhaço em ação: ele e sua bengala, quase mágica, quase viva. Valdemar Seyssel, o Arrelia nos deixou recentemente, aos 99 anos de idade. Noventa e nove anos! Ele era um dos grandes mestres circenses ainda existentes. Foi um dos criadores do “Circo Escola” que ainda funciona em São Paulo. Eu era admirador da família Seyssel: o Walter (ou Vicente) Seyssel, o Pimentinha, era a “escada” do Arrelia. Escada é o termo que se usa para o ator que dá as “deixas” para o comediante dizer a piada ou fazer a “graça”. Ave, Arrelia, cheio de graça! Lembro que havia ainda a Amélia Seyssel, o Henrique Seyssel e o Eltron Seyssel; que embora da família, jamais soube direito qual o gráu de parentesco entre eles. Lembro que em 1981, o Arrelia esteve em Taboão da Serra, minha cidade. Ele se apresentou no Cemur. ‘A época ele já beirava os setenta anos. Fã incondicional que sou, levei dois sobrinhos que adoro, o Rogério e a Daniela, para que o conhecessem. Ele nos recebeu no seu “camarim”. Foi elegante e simpático para com meus sobrinhos.
Jamais esquecerei o espírito bondoso desse homem que fez cinema, teatro e televisão. Nem faz tanto tempo assim vi, na TV Cultura de São Paulo, um filme nacional que ele fez junto com Procópio Ferreira, antigo ator e pai de Bibi Ferreira, atualmente diretora de teatro do Rio de Janeiro. Já sinto saudades do Arrelia.

Saudades! Somente duas línguas têm uma palavra que define aquela dor que nos dá no coração quando estamos muito tempo afastados das pessoas que amamos: a língua Portuguesa e a língua Árabe. Em árabe, o “eshtiak” (ou “shoo que”, quando usado só para pessoas), é a “palavra mãe" de uma da mais lindas palavras da língua Portuguesa: a palavra “saudade”. A presença árabe em tantos anos (séculos) de Península Ibérica não podia passar em brancas nuvens; e não passou. Até um dos clássicos da literatura mundial, o “El Cid”, só poderia ter sido escrito se os árabes fizessem parte da Península Ibérica. E o povo árabe fez (faz) parte da Cultura Ibérica! De resto e deixou-nos um sem números de palavras, músicas, instrumentos musicais, temperos, costumes e comidas.

É muito bom escrever: escrevendo passo a limpo as coisas que quero contar e que não deram certo. Hoje senti saudades, talvez motivado pela morte do palhaço Arrelia, daí resolvi escrever sobre esta palavra, que já foi “dissecada” milhões de vezes. Em crônica o texto tem que ser de afirmações; nada de fantasias, portanto só vou escrever a verdade, nada mais que a verdade.

Ter saudades não é só dizer "nostalgia", para traduzir saudade em outra língua. Saudade, conforme diz a canção, "é uma tristeza que não sabemos de onde vem".
Eu tenho saudades de tudo que marcou a minha vida ! Nas lembranças dos "causos" que meus pais e avós, sertanejos, me contavam; quando vejo seus retratos; quando sinto cheiros, como daquele chá de hortelã com açúcar queimado (único que tomei na vida, preparado pela vovó Biluca); quando ouço uma voz, que me lembra alguém a quem não esqueci; quando me lembro das pessoas que convivi no passado. Ah, eu sinto saudades. Saudades muitas, montanhas de saudades. Sinto saudades dos amigos que nunca mais vi, de pessoas com quem não mais falei ou cruzei. Sinto saudades de minha infância, do meu primeiro amor, da primeira professora, a dona Dulce de São Simão-SP;dos meus amigos de infância, do primeiro beijo.

Sinto saudades até do presente, que não consigo aproveitar direito, devido ao redemoinho que se transforma nossa vida moderna, tenho saudades do passado, próximo e distante, como de quando conheci minha esposa e namoramos e noivamos por longos dezoito meses, também sinto saudades do futuro, que não sei se vou conhecer, mesmo assim estou saudoso. Este futuro no qual apostei toda minha vida: e idealizei, me preparei, estudei, passei privações de vários tipos, mesmo assim sinto saudades, até porquê eu não o conheço: nem ele a mim!. É possível que o futuro seja diferente de tudo que sonhei, mesmo assim, dele sinto saudade. Sinto saudade até do barulho da enceradeira, que hoje nem existe mais nas lojas de departamentos, tenho saudades. Tenho saudades de quem deixei, de quem me deixou, dos amigos da escola rural e da faculdade, dos times de futebol de várzea, tenho saudades. Tenho saudades de quem um dia disse que viria e não veio; sinto saudades de quem apareceu na minha vida como um furacão ou um cometa, sinto saudades. Sinto saudades da dona Guidinha e do Seu Joaquim, meus pais, a quem Deus levou tão cedo e nem tive a chance de dizer o quanto os amava, sinto saudades. Sinto saudades do meu irmão primogênito e minha irmã mais velha, que tão cedo se foram, sinto saudades. Sinto saudades novas e saudades antigas, sinto saudades de quem nem conheci. Sinto saudades de uma tarde no circo mambembe, onde assisti teatro pela primeira vez na vida, sinto saudades. Sinto saudades, eu campesino, das “procissões de chover”, bem no auge das grandes secas que matavam nossas lavouras de subsistência, sinto saudades.

Sinto saudades dos que se foram e dos quais não me despedi direito nem torto, como meus irmãos queridos Oswaldo e Táta, que não tiveram como me dizer adeus... Tenho saudades de gente que passou na calçada contrária da minha vida, pessoas que só enxerguei de vislumbre; tenho saudades de coisas que eu tive e de coisas que nem sei se existiram na minha vida, mas se soubesse, decerto gostaria de experimentar. Tenho saudades das gentes que, por eu ter cruzado a rua, deixei de conhecer. Sinto saudades do meu cachorrinho, o Viajante, que tive um dia, quando criança e que me amava fielmente, como só os cães de crianças são capazes; dos livros que li e que me fizeram viajar, dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar, das coisas que vivi e das que deixei passar, sem curtir na totalidade, para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi, mas mesmo assim, sinto saudades.

Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades em Taboão da Serra, em Cravinhos, na cidade do Cabo, em Londres ou Xangai, ou em qualquer outro lugar do planeta. E meu sentimento poderia se expressar em qualquer língua, mas que minha saudade, por eu ser brasileiro, só fala Português, embora, lá no fundo, sei que ela fala todos os idiomas, mesmo que não saibam descrevê-la. Creio que todos os povos sintam saudades, apenas eles não sabem demonstrá-la por palavras. E é por isso que eu tenho ainda mais saudades. Porque encontrei uma palavra que posso usar sempre que eu sentir este aperto no peito, irreverente, gostoso, triste, amargo, visceral, mas que funciona melhor do que um sinal vital quando se quer falar de vida e de sentimentos. Saudade é a prova inequívoca de que somos sensíveis; de que amamos as coisas boas que perdemos ao longo da nossa existência, inclusive o palhaço Arrelia.

Sentir saudade é prova de que sou um ser humano. E brasileiro!
ACAS
Publicado no Recanto das Letras em 29/07/2005
Código do texto: T38623

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2 comentários:

Antonio Carlos disse...

Caro Pedro,
Aqui é o autor do texto, Antônio Carlos Affonso dos Santos, o ACAS. Finalmente alguém publicou corretamente meu texto! Esse texto sofreu cirurgias em publicações particulares, quase todas incluindo trechos que não escrevi. Você, Pedro, foi o primeiro que publicou o texto realmente como é. Agradeço o fato de tê-lo publicado como eu o compus. Que Deus nos proteja; sempre!

Antonio Carlos disse...

Caro Pedro,

Finalemnte alguém publica meu texto corretamente.
Grato,

Antônio Carlos Affonso dos Santos